terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Entrevista sobre generosidade e solidariedade e seus benefícios para o site UOL


A jornalista Marina Oliveira, produtora de conteúdo corporativo e editorial do canal mulher do UOL, pediu uma entrevista sobre como fazer o bem pode colaborar com o bem-estar de uma pessoa, a ideia é dialogar um pouco sobre generosidade e solidariedade. 
Segue o link da matéria editada: http://mulher.uol.com.br/comportamento/noticias/redacao/2013/01/21/exercitar-a-tolerancia-e-a-gentileza-sao-formas-de-praticar-a-solidariedade.htm

Segue a entrevista na íntegra:

1) O fazer o bem pode trazer benefícios a vida de uma pessoa? De que maneira?
Em um experimento com ressonância magnética funcional[1] quando uma pessoa doou parte de seus bens o aparelho registrou uma ativação no núcleo accumbens[2] e na ínsula, regiões cerebrais ligadas a área de recompensa emocional. É interessante constatar que pessoas comem doces, chocolates, comidas muito saborosas ou fazem sexo têm também essas regiões mais ativadas. Como ambas estão ligadas a sobrevivência e reprodução e por isso garantem a sobrevivência da espécie os pesquisadores e estudiosos do assunto levantaram a hipótese de que a capacidade de compartilhar, doar, ajudar... tenham sido necessárias no curso da evolução para garantir a progressiva socialização dos homens. Essa pesquisa revela que, do ponto de vista neurocientífico, sentimos prazer não apenas em receber, mas em doar e em se doar também. Provavelmente, em algum momento da nossa evolução passamos a ter comportamentos que iam além dos mínimos necessários para simplesmente comer e reproduzir. Em algum momento da vida de nossos ancestrais, aqueles que tinham a capacidade de se solidarizar deixaram mais descendentes do que aqueles que não se solidarizavam. Até o ponto que os últimos praticamente desapareceram. Neste sentido, ser solidário, ser capaz de sentir o que o outro está sentindo, passou a ser mais vantajoso evolutivamente falando, do que não o ser. As pressões evolutivas que forjaram a empatia, a solidariedade nos humanos, acabaram por criar uma das dinâmicas comportamentais mais impressionantes da evolução. Em outras palavras, o comportamento altruísta se manteve, foi selecionado porque trouxe benefícios ao grupo.
A nível individual foi observado que o ato de ajudar aos outros pode trazer vários benefícios. Os mais evidentes são o aumento da autoestima. Em geral, isso acontece porque a pessoa se sente útil aos outros, se sente especial, importante. Muitas pessoas que sofrem de depressão, por exemplo, e partem para trabalhos voluntários com o passar do tempo percebem uma melhora significativa no seu humor e na melhora do convívio com seus pares.

2) Muitas pessoas dizem não conseguir ajudar o outro por não dispor de tempo ou dinheiro. Podemos desmistificar os atos grandes (trabalho voluntário, atuação em ONGs e centros de caridade), e dizer que é possível ajudar ao próximo com pequenas ações? Você poderia citar algumas destas ações?
            Generosidade e solidariedade são coisas boas. Dar uma força, uma mãozinha, quebrar um galho devem ser exercitadas e executadas por todos, desde o cidadão comum até os governos. As formas de falar - e ajudar - são muitas e podem ser classificas em três grandes grupos:
a) Ajudas emocionais: alegrar pessoas enfermas em hospitais como é o caso das pessoas que aderem ao papel de palhaços e animadores, fazer visitas a pessoas idosas ou a orfanatos, ouvir e aconselhar um amigo que passa por problemas emocionais, participar de algum tipo de voluntariado, fazer visitas a pessoas enfermas...
b) Ajudas financeiras e materiais: adotar financeiramente uma instituição filantrópica, ajudar pessoas com roupas e mantimentos, por exemplo, em tragédias ou catástrofes naturais (deslizamentos de terras, enchentes, secas...), ajudar financeira e materialmente um familiar ou amigo...
c) Apoio político devido a identidade de pensamento: apoiar algum grupo político minoritário, participar de passeatas, assinar um ato político...
Em suma, participar de qualquer atividade que ajude aos outros de alguma maneira é uma forma de manifestar solidariedade.

3) Ser mais tolerante e paciente com as pessoas e até com as próprias limitações da vida é uma maneira de fazer o bem?
            Sim. Pessoas mais tolerantes as frustrações tendem a criar vínculos mais saudáveis. Em geral são pessoas mais afetivas. Uma pessoa que aceita a vida como ela é e consegue conviver com as frustrações derivadas dos relacionamentos consegue desenvolver melhor seu autoconceito.

4) Fala-se muito hoje de relações superficiais, que muitas pessoas não conseguem desenvolver vínculos mais profundos e manter amigos por falta de generosidade com o outro. Por não conseguir doar-se e saber trocar. O fazer o bem também poderia ser aplicado nestes casos? De que maneira?
A postura solidaria ou o fazer o bem ao outro envolve a capacidade de identificar e compartilhar o sentimento de outra pessoa. Está associada ao sentimento de empatia que é quando o sentimento do outro passa a ser a mesma morada. É quando um se coloca no lugar do outro e parte para ajudar. Pode-se dizer que é uma das características mais impressionantes da nossa espécie. Inclusive a nossa espécie é a única que conforta seus semelhantes na dor. Somos capazes de identificar com detalhes a dor do outro e sentir fisiologicamente o que este outro deve estar sentindo. Se o vizinho, por exemplo, perde um filho jovem, somos capazes de chorar pela dor que ele está passando, mesmo sem nunca termos conversado com o vizinho.

5) O que a pessoa deve ter em mente ao decidir mudar suas atitudes para ajudar o outro? É preciso abrir mão do que para realmente fazer o bem de uma maneira orgânica?
            A pessoa precisa se livrar de sua vaidade e começar a observar mais aos outros ao seu redor. Fazer um exercício de observar os desejos e necessidades dos outros. Vale também indagações do tipo: Quanto você faz pelo outro? Qual o seu tempo gasto com o outro? Quanto você presta atenção no que o outro fala?
Se você não sente satisfação em estar com o outro, prestar atenção, fazer pelo outro provavelmente você não é uma pessoa afetiva ou solidária.
E como mudar isso? Para mudar é necessário a difícil arte de se envolver com as pessoas. É preciso experimentar contextos mais afetivos, ou seja, entrar em contato com pessoas sensíveis as outras e observar o comportamento delas como modelo de ação. Todavia, comportar-se afetivamente e controlado por regras no início não é saboroso. Para o afeto fazer parte do repertório é preciso muita paciência e muitas histórias de convívios afetivos. A seguinte regra é muito necessária: “Tomar decisão sempre pensando no outro”, no início é uma regra emprestada que não produz ganhos, mas se experimentada produz bons frutos porque as outras pessoas de aproximam mais e retribuem com afeto. Há ainda outras regras que servem como incentivadoras de afeto como por exemplo: “Procure honestamente ver as coisas do ponto de vista do outro.” 

6) Esta transformação interna pode ser algo trabalhoso? Como tornar isto algo mais tranquilo e natural?
            É algo trabalhoso porque envolve o desenvolvimento do repertório afetivo. Que na sua essência envolve a capacidade de se colocar no lugar do outro e fazer algo para ajudar. Como vivemos em uma cultura muito competitiva o ato de ser generoso é pouco ensinado ou entra em condições de incompatibilidade. Por isso ir para a terapia é um caminho mais rápido porque há o terapeuta como fonte de modelo afetivo e como modelador do repertório de empatia. No entanto, como a terapia é relativamente algo caro, seguir exemplos de pessoas afetivas e tentar reproduzir tais comportamentos no cotidiano pode ser uma boa saída.
           
7) Se ela quiser começar esta transformação amanhã, o que pode começar mudando?
            Comece por atos simples. Todos os dias pratique pelo menos um ato de bondade. Pode ser até uma palavra de conforto que possa refletir sua solidariedade para aliviar a dor de alguém. Lembrando que ter compaixão do outro abre espaço para se importar com essa pessoa e ajudar. No entanto, isso não precisa ser dito e nem deixado claro para a pessoa que está sendo ajudada porque ela pode vestir o papel de vítima ou em casos de orgulho pode não aceitar a ajuda.



[1] O aparelho de ressonância magnética funcional revolucionou as pesquisas e os diagnósticos na década de 90. Ele é um aparelho que tem um procedimento de varredura baseado em computador que utiliza fortes campos magnéticos e pulsos de radiofrequência para produzir uma imagem de uma seção transversal do cérebro ou do corpo. Este exame gera imagens computadorizadas do cérebro em ação, com indicação de quais regiões cerebrais mostram mais atividade neural durante uma determinada tarefa. Ele oferece maior precisão do que o exame de tomografia computadorizada.
[2] O núcleo accumbens é uma região que faz a interface entre os órgãos do sistema límbico e o córtex frontal. Inclusive são as mesmas áreas associadas ao uso de drogas como a cocaína, nicotina, anfetamina, álcool... Em um experimento realizado na década de 60 com pessoas depressivas foi estimulado eletricamente o núcleo accumbens e isso produziu sensações prazerosas curiosas. Alguns pacientes chegaram a o extremo de compará-la a uma espécie de euforia orgástica, ao passo que outros, segundo relatos, foram mais longe: apaixonaram-se pelos cientistas responsáveis pelo experimento. Além disso, os pacientes que podiam autoaplicar a estimulação apertando um botão fizeram isso compulsivamente. 

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Reginaldo do Carmo Aguiar é psicólogo clínico comportamental, analista do comportamento e estudioso das Neurociências.

 

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